#nãosouobrigada | 1 - PÊLO, NO FEMININO

8 de setembro de 2017

Tradução: O ser humano tem pêlo corporal

Ainda que o pêlo corporal seja inerente a qualquer um dos sexos, a qualquer corpo - excluindo-se a ausência de pêlo causado por doença, condição ou tratamento médico - o pêlo corporal no feminino - como afirmação de feminilidade, digamos assim - é visto como uma situação à parte ou até mesmo como um não assunto, impossibilitando a discussão e o debate em muitos meios, mantendo a mulher submetida à obrigação social de se depilar e não à sua opção pessoal. 

É ingénuo pensar que todas nos depilamos porque gostamos, quando desde tenra idade nos foi vendida a ideia de que o nosso corpo simplesmente não foi feito para carregar pêlo. É frequentemente associado a falta de higiene e de cuidado pessoal, embora num corpo «masculino» a higiene não seja questionada, são simplesmente homens e os homens têm autorização a ter pêlo.

Enquanto que os homens são autorizados a ter pêlo e podem removê-lo consoante a sua vontade, as mulheres continuam a ser bombardeadas com opções de depilação intermináveis (numa indústria que sobrevive da procura feminina), a submeter-se a uma dor e gasto de dinheiro desnecessários que muitas vezes julgam inerente à sua existência e um marco obrigatório da sua feminilidade. As que não se conformam com a obrigatoriedade e exibem os pêlos corporais em público, não recebem obviamente o mesmo tratamento (sendo este a pura indiferença alheia) e aceitação que os homens, sendo mais ou menos aí que reside o problema.

Tudo bem, já surgiram em diversas revistas e anúncios mulheres a envergar pelos nas axilas, mas de certeza que a H&M não considera mulheres com pêlo corporal na hora de escolher assistentes de vendas, mesmo após ter-se servido das lutas sociais do feminismo interseccional na propaganda à colecção de outono de 2016. Todo este mediatismo em torno de mulheres brancas com axilas por depilar acaba por não criar discussão nenhuma, mas contribui para que no máximo venha a ser socialmente aceite exclusivamente os pêlos debaixo dos braços enquanto nos carimbam como "feministas radicais, dessas modernas que há aí" como se envergar pêlo ou ver em geral o nosso corpo respeitado fosse meramente uma questão quase religiosa/de crença e não um simples direito ou escolha.

Há, por fim, a questão da atracção: "os homens não gostam de mulheres com pêlo". Válido. Os homens também não gostam de mulheres mais altas que eles, de mulheres gordas, de mulheres de cabelo curto, de mulheres que mostrem demasiado o corpo, de mulheres que digam palavrões, que falem alto, que no geral fujam ao estereótipo do que é ou deveria ser uma mulher. Este argumento facilmente vira o feitiço contra o feiticeiro: desde quando é que a nossa existência deveria servir para agrado masculino em geral e porque é que temos de continuar a fazer as nossas escolhas numa tentativa de agradar o resto do mundo? 

Tradução: Porque é que deveria alterar o estado natural do
meu corpo somente para ser visto como socialmente aceite?


Esta pressão advém da educação e daquilo que se espera de cada género e daquilo que se conhece por definir os mesmos. Por essa razão, as pessoas que não se enquadrem em nenhum dos géneros continuam a sofrer discriminação e muitas mulheres trans continuam a ter que afirmar a sua feminilidade através de estereótipos de género, porque afirmarem simplesmente serem mulheres não chega para serem socialmente aceites como tal. 

O que acaba por acontecer é entrarmos numa constante procura por uma feminilidade como se esta fosse exacta e/ou obrigatória na nossa existência, como se a nossa identidade dependesse disso! Ainda que a escolha seja efectivamente nossa, acabamos por cair num ciclo de auto-opressão em que simplesmente nos sujeitamos àquilo que o ambiente em que nos inserimos exige de nós. Esta expressão livre essencialmente corporal torna-se ainda menos acessível para todas as mulheres que já de si fujam à norma branca e ocidental.

Ilustração por Carol Rossetti
Tradução: Amanda decidiu que a depilação não faz o seu género.
Amanda, é o teu corpo e fazes o que quiseres com ele.
Nenhuma convenção social deveria ter palavra sobre a tua identidade.


Se a forma como nos expressamos e aquilo que fazemos com o nosso corpo é criticado e muitas vezes não apreciado pelos homens, a situação torna-se mais grave quando são as próprias mulheres a desrespeitar as escolhas pessoais de outras, assumindo um pensamento machista que se reflecte nos seus discursos. 

O pêlo corporal assume, para muitas, um marco na sua liberdade individual e um investimento no amor próprio que surge do que sentimos por nós mesmas e não do que sentimos comparativamente ao que esperam de nós. É poupar dinheiro em rituais que nos parecem desnecessários e que são incompatíveis com a carteira de muitas. É tirar de cima uma preocupação que não faz sentido e que só alguma vez fez porque nos quiserem fazer crer que se não o fizéssemos éramos sujas e descuidadas, porque termos pêlo é, na boca de muitos (que os têm) e de muitas (cujos filhos ou maridos têm) nojento.

Morgan Mikenas | Fitness Blogger

Se a ideia de nos fazerem depilar surgiu como forma de afastar piolhos e outros bichos,  esta veio a tornar-se quase uma obrigação sobretudo nos últimos séculos - algo inerente à feminilidade e não somente a questões de higiene. Facto é que o remover dos pêlos pode trazer mais problemas do que mantê-los (sobretudo nos genitais), pelo que a ausência de pêlo não é sinónimo de higiene e este não é um argumento válido.

Ao abrir esta discussão, o que se pretende não é que todas as mulheres se deixem de depilar (até porque muitos homens também o fazem e cada vez em maior número) mas que a esta seja dada uma verdadeira escolha. Enquanto que preferir homens depilados é visto como uma questão de gosto pessoal, preferir mulheres depiladas é uma questão de educação social e daquilo a que somos habituados ou não a ver como natural. Termino este artigo com as palavras da Laura Vascoto no blog/site "Nó de Oito" (o link direcciona para a publicação na íntegra, que também merece ser lida) e com a minha posição pessoal no assunto.
"Pelos, de certa forma, são uma grande prova do poder da cultura de moldar nossas crenças, nossas escolhas e nossas vontades. Mesmo que seu parceiro não se importe com eles e que a decisão de removê-los seja sua e somente sua, isso não muda o fato de que a depilação feminina é uma construção machista que se desenvolveu ao longo de séculos, e que é essa construção que está por trás dos sentimentos de descontentamento, inadequação, vergonha e humilhação que fazem com que você remova os seus pelos. 
Isso não significa, é claro, que uma mulher que se depila é a favor do machismo ou menos feminista. As coisas não são assim, preto no branco. Mas conhecer o porquê das coisas nos ajuda a, aos poucos, nos libertarmos desses ideais deturpados. E isso é importante, porque só assim poderemos ter a certeza de que as nossas escolhas, independente de quais forem, são de fato nossas." 

EU E O (MEU) PÊLO 
De há uns anos para cá que decidi simplesmente não me importar se a depilação está feita ou não. Em certos contextos de trabalho, exigiam-me que me depilasse, noutros deixavam-me à vontade - embora muitas vezes eu a fizesse simplesmente porque não queria correr o risco de ser assediada no meu local de trabalho. 

Para quem sempre viu o momento da depilação como a maior trabalheira de sempre, despreocupar-me com o assunto foi mesmo o melhor que fiz. Antes disso, ainda comecei a fazer a depilação em casa, para evitar deslocações a um salão e para poupar uma série de dinheiro (1,99€ cada recarga de um roll-on que me dava para depilar as pernas quase todas, a cera!), mas não queria ter o trabalho, ficava de fazer e de fazer e nunca mais fazia.

Quando comecei a adiar constantemente as depilações, saía de casa com calças e isto tornou-se um hábito semanal porque simplesmente me aborrecia fazê-la! Para compensar o meu pensamento de obrigação em relação à coisa, convenci-me também de que não era necessário expor-me daquela forma. Depois caiu-me a ficha: eu não devo nada a ninguém e o corpo é meu, troquei as calças por calções porque ninguém merece andar de perna tapada com 30ºC na rua e em pleno verão só por não ter tempo - imagine-se! - para remover pêlos.

Ir para a praia (ainda que não seja algo que faça com muita frequência) era algo que não me apetecia por me aborrecer estar a depilar virilhas e coisas assim (algo que sempre detestei por ter uma tendência a criar irritações nessa área que pioram significativamente com a depilação). Para que é que me iria dar ao trabalho de estar a depilar-me só para ir para a praia, podendo simplesmente ir à praia? E comecei a ir, com ou sem depilação feita.

Algo que notei é que as pessoas têm menos tendência a fazer comentários mais infelizes na rua do que online(óbvio). Os comentários que recebi eram maioritariamente de pessoas que me eram próximas que se referiam à situação muitas vezes em tom de gozo, mas que no geral sempre demonstraram respeito - até por compreenderem que não têm nada a ver com o assunto. Chateava-me, contudo, ouvir outra mulher, mesmo que minha amiga, a dizer-me "Ai Rita, que nojo!", "Ai credo, esconde-me isso", "Olha lá menina, não está na hora de fazer a depilação?" mas vinham de pessoas que eu conhecia e que se achavam no direito de comentar o que eu fazia ou não fazia com o meu corpo e eu encolhia os ombros e continuava a minha vida.

Em geral, de desconhecidos, não senti qualquer tipo de constrangimento ou olhares, talvez por não andar à procura deles. Socialmente a minha vida não mudou, nem o interesse amoroso ou sexual de outras pessoas por mim. Chegaram a pedir-me que me depilasse porque não gostavam e eu fui a primeira a ir-me embora. Não gosta, não come e eu não estou aqui para transformar o meu exterior para agrado de outra pessoa, muito menos de macho.

Nos últimos anos, o único comentário que recebi em alto e bom som mas que infelizmente nem vi de onde veio - só sabendo que foi uma senhora a proferi-lo - foi "Ah, parece aquelas americanas com aquele pêlo todo debaixo dos braços. Um nojo!" e eu até gostava de ter sabido de onde veio, precisamente por ter sido outra mulher a dizer algo assim. Com o ódio de macho já não me surpreendo, mas hei de sempre ficar incrédula por ver uma mulher apontar o dedo a outra desta forma.
No geral não sinto que na rua se sofra tanto quanto isso e, online, não temos os pêlos assim tão expostos quanto isso. Muitas vezes também assumo o privilégio de ter pêlos muito loiros na maior parte do corpo e onde não nascem tão loiros são precisamente nas zonas que depilei (e maioritariamente a cera) nos últimos dez anos. Os comentários positivos que se recebe de outras mulheres são encorajadores, muitas delas afirmando "quem lhes dera ter coragem", e eu desejando que a coragem de umas contagie outras.

Quando se aborda «o homem» neste artigo, refere-se ao homem enquanto maioria opressora relativamente à mulher. Generalizar uma minoria, seja ela qual for, não tem o mesmo peso crítico do que generalizar uma maioria opressora. Reconhece-se, como é óbvio, que cada indivíduo seja um indivíduo e que no que toca ao conservadorismo social, tanto nos deparamos com homens que reconhecem e compreendem a função e objectivo do feminismo - e identificando-se como tal - como mulheres que não o reconhecem e acabam por demonstrar atitudes e discursos machistas. 


Nenhuma das imagens do artigo me pertence. Acrescentei a fonte da única que conhecia, se souberem a quem pertence as restantes, informem-me.

5 comentários

  1. Respostas
    1. Obrigada! Faz falta pessoas mais tolerantes no mundo :)

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  2. Gostei do texto e admiro a tua coragem.

    https://algodaodoce1234.blogspot.pt/

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  3. Gostei imenso do teu texto! Parabéns pela tua coragem, Rita! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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